Mídia e legitimação de poder

Não sei se você já reparou, mas, nos dias de hoje, o que é falado na mídia por celebridades tem alta relevância para a legitimação de poder. Quer entender o porquê? Vem comigo!

Este texto deve começar com uma pergunta: você já percebeu que, na era digital em que vivemos, em que a internet é onipresente, guardar algo em segredo é quase impossível? E mais, diante de um impasse, saber quem realmente está falando a verdade numa situação controversa é tão difícil quanto. E o poder do que é certo ou errado, pelo visto, está nas mãos daqueles que têm uma maior visibilidade midiática - ou seria credibilidade? Se não entendeu, pera que vou explicar.

A título de exemplificação, usarei o episódio que estourou na mídia recentemente envolvendo o jogador de futebol Neymar e uma moça que, até então, não era famosa. No caso, o jogador foi acusado de estuprá-la durante uma viagem à Paris. E, para se defender das acusações, utilizou suas redes sociais - que por sinal tem 119 milhões de seguidores - para expor as mensagens trocadas por ambos, antes e durante a viagem. Inclusive, deixando visíveis alguns “nudes” trocados.

Legitimação do poder na mídia

Bom, não estou aqui para dizer ou julgar se houve ou não estupro. Afinal, como a maioria das vezes em que ocorre esse tipo de acusação, não houve testemunhas, e compete ao judiciário chegar a uma conclusão sobre o caso. O meu questionamento é: teria o jogador o direito de expor diálogos e fotos íntimas de outra pessoa, mesmo que estes tenham sido enviados para seu celular? Há legitimidade nessa exposição?

Muito se tem discutido sobre o assunto desde que ele estourou na mídia. Já li e escutei diversas vezes que a mulher queria se aproveitar do dinheiro do jogador. Ok! Cada um tem seu direito de opinar. Mas pouco ouvi falarem sobre o cabimento da divulgação feita. E ouvi mais, pessoas tentando defendê-lo com o seguinte argumento: “Neymar não pode ter feito isso, ele é jogador de futebol, famoso, não precisa disso”.

Para explicar o assunto em termos sociológicos, quero trazer um conceito criado por Pierre Bourdieu capaz de fomentar a discussão.

Tipos de Capitais de Bourdieu

A teoria trabalhada pelo autor se justifica pelo fato de que somente o capital econômico não é suficiente para explicar o nível de conhecimento, escolaridade e poder que uma pessoa possui no meio em que vive. Há fatores culturais e sociais, capitais simbólicos adquiridos ao longo de sua vida que podem ser influenciadores.

Segundo o autor, existem três tipos de capitais, pois, somente o capital econômico não é suficiente para explicar o nível de escolaridade ou riqueza e poder de uma pessoa. São eles:

1º - Capital econômico: é aquele relacionado à renda;
2º - Capital social: é medido por dois elementos: redes de relações sociais, que permitem aos indivíduos ter acesso aos recursos dos membros do grupo ou da rede, e a quantidade e a qualidade de recursos do grupo.
3º - Capital cultural: são as referências culturais, os conhecimentos considerados apropriados e o domínio maior ou menor da língua culta que uma pessoa possui, por exemplo .

Então, o capital social e o cultural são simbólicos e ajudam a aumentar o aspecto econômico de um indivíduo ou sua manutenção. Todas essas modalidades ajudam a reproduzir a estrutura de poder de uma sociedade.

Beleza, mas o que isso tem a ver com Neymar? Vamos analisar o Capital de Visibilidade.

Capital de Visibilidade de Heinich

Mais recentemente, a socióloga francesa Nathalie Heinich adicionou uma vertente ao capital social, chamando-a de Capital de Visibilidade. Esse tipo de Capital define as celebridades e pode ser visto como uma forma contemporânea de acumular relações que, no fim, trazem ganhos econômicos ao seu titular.

O termo faz referência a interesses e ganhos sentido graças às mudanças ocorridas no início do século XX: com o aparecimento das grandes cidades e dos veículos de comunicação de massa, os indivíduos eram cada vez mais expostos a outros seres e estímulos. Esse quadro se intensificou ainda mais com o surgimento das mídias digitais.

Assim, rostos de celebridades, como Neymar, ganham presença basicamente diária na vida do consumidor de entretenimento. Há, então, uma dissimetria, segundo Heinich, já que as celebridades são conhecidas por aqueles que “ninguém” conhece. Assim, quanto maior essa dissimetria, maior seu capital.

Se unirmos a isso tudo o conceito de “Olimpianos” de Edgar Morin, veremos que as celebridades são hoje tratadas como os deuses, do mesmo modo como da mitologia grega eram pelos antigos. Toda essa projeção na mídia, a qual as celebridades estão sujeitas e se sujeitam, gera uma influência e, ao mesmo tempo, uma identificação por parte do público.

Celebridade e legitimação

Podemos facilmente mensurar o capital de visibilidade de Neymar ao olhar o seu número de seguidores no instagram. Esse capital justifica a legitimidade de seus atos e de sua fala. Nessa perspectiva, ele não seria questionado pelo que fez, e sim conseguiria apoiadores à sua fala de que “a mulher queria se dar bem economicamente em cima da fama dele”, tornando-a legítima por ele ser uma pessoa “conhecida”, não apenas um “ninguém”.

Bom, se o crime de estupro ocorreu mesmo, isso será decidido pela justiça. O que quero deixar aqui é uma reflexão sobre até que ponto colocamos celebridades como deuses e nos espelhamos no que eles fazem ou dizem, a ponto de legitimar posturas anti-éticas.

E vocês, o que acharam sobre o caso? Ficaram com alguma dúvida sobre algum conteúdo aqui exposto? Deixe sua opinião aqui nos comentários.

Um beijo e até o próximo post aqui no Master Juris! 🙂

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